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segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O que mostra uma boa reportagem

Por Luciano Martins Costa em 8/9/2008

Sobre comentário para o programa radiofônico do OI, 8/9/2008

A reportagem publicada no fim de semana pelo Estado de S.Paulo poderia ser usada como tema de uma aula sobre responsabilidade social, assunto que a imprensa costuma ignorar, quando não o trata com absoluta superficialidade. Os repórteres pintam um retrato chocante da região amazônica, onde os royalties do petróleo, do gás e dos minérios produzem ainda mais miséria.
Em Coari, no Amazonas, Juruti e Parauapebas, no Pará, empresas cujos relatórios de sustentabilideade brilham de tantas ações generosas são apontadas como responsáveis pela desagregação social e por um dos mais graves casos de exploração sexual de crianças e adolescentes que a imprensa já registrou no país.
Ali atuam a Vale do Rio Doce, a Alcoa e a Petrobras, empresas cujas ações cintilam nas bolsas de valores e cujos departamentos de marketing vendem a imagem da sustentabilidadee e da responsabilidade social. Mas a realidade constatada pelos repórteres do Estadão é a do contraste entre o crescimento econômico e o crescimento da violência e da corrupção.
Boas intenções
A reportagem deixa claro que, 34 anos depois da abertura da Transamazônica e 25 anos depois do auge do garimpo em Serra Pelada e da construção da hidrelétrica de Tucuruí, o Brasil ainda não foi capaz de produzir uma estratégia de desenvolvimento para a Amazônia que não seja simplesmente mais uma porta para a miséria e a exploração de seus habitantes e de seu patrimônio natural.
Exatamente onde mais jorra o dinheiro dos royalties pagos pelas empresas que extraem petróleo, gás e minérios, os números da exploração sexual de crianças e os índices de qualidade de vida são piores do que os das demais cidades da região.
Os dados apresentados pela reportagem são inquestionáveis: somente em Coari, com a chegada da Petrobras, o número de mães com até quinze anos de idade subiu de 1,7% para 13,9% do total de partos por ano.
As empresas que exploram as riquezas da região recheiam seus relatórios de sustentabilidade com belas iniciativas e as melhores intenções. Mas nada como uma boa reportagem para colocar por terra toda propaganda.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Barack Obama e o poder da internet

Altamiro Borges*

Para todos os que encaram as eleições de 2008 como decisivas no longo processo de acumulação de forças do campo popular e democrático, o texto do jornalista Rodrigo Savazoni, publicado no portal Terra Magazine, serve de alerta e, ao mesmo tempo, dá uma importante dica. Ele revela o papel determinante e até surpreendente que a internet tem jogado na campanha do candidato do Partido Democrata nos EUA. Para ele, já não há dúvida de que a campanha de Barack Obama "é o exemplo mais bem-sucedido do uso da internet para fins político-eleitorais".
"Há um ano, Obama era apenas um senador em primeiro mandato, negro e jovem, que aspirava concorrer à vaga de candidato a presidente da maior potência do planeta. Seus adversários, muito mais poderosos, não o colocariam como principal adversário. Para compensar essa diferença, ele investiu num discurso enfático de mudança, baseado no bordão ‘Sim! Nós Podemos!’, e na rede mundial de computadores. Por isso, venceu as prévias [do Partido Democrata], e agora enfrenta o republicano John McCain para chegar à Casa Branca".

94% das doações pelo ciberespaço
Para reforçar sua tese, ele cita o artigo "Conexão Obama", publicado em maio no The New York Times. "Obama é sedutor, grande orador, um sujeito com uma trajetória irrepreensível. Não fosse a internet, porém, ele nada seria", garante o autor Roger Cohen. Segundo a pesquisa, o candidato democrata já havia conquistado 1.276.000 doadores, 750 mil voluntários ativos e 8 mil grupos de afinidade. "Em fevereiro, quando sua campanha arrecadou 55 milhões de dólares (45 milhões via internet), 94% das doações apresentaram valores menores que 200 dólares". São números que impressionam e mostram a força da internet, inclusive na criativa captação de recursos.
Entusiasmado com a internet, Savazoni observa que "o ciberespaço se transformou no ponto de encontro de uma geração inteira, insatisfeita e envergonhada com os descaminhos promovidos por Bush. E essa geração resolveu disputar com seus pais e avós o futuro da nação, usando a seu favor o arsenal democrático de comunicação surgido nos anos 90. O site de Obama é uma grande rede social, onde os eleitores trocam informações entre si. Seu segredo é a interação permanente. Seus apoiadores usam o You Tube (para vídeos), Twitter (para mensagens instantâneas), mantém comunidades em sites de relacionamento, como Orkut, Facebook e MySpace, e conversam diretamente com os eleitores por mensageiros eletrônicos, como o Messenger ou Google Talk".

Resolução draconiana do TSE
O excelente texto de Rodrigo Savazoni tem enorme utilidade, principalmente para os candidatos do campo popular, que não contam com os fartos recursos dos representantes dos ricaços. É certo que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na resolução de número 22.718, assinada pelo ministro Ari Pargendler, tentou sabotar o uso deste meio mais democrático de comunicação. Entre outros retrocessos, ela fixou as mesmas restrições já existentes à propaganda eleitoral na TV e rádio, que são concessões do Estado. Ela também impôs que os candidatos só poderão ter um único site na rede, não podendo usar várias ferramentas de contato e interação com os eleitores.
A resolução do TSE, altamente antidemocrática, tem gerado confusão sobre o uso da internet nas eleições. Com base nela, por exemplo, a Justiça Eleitoral do Rio Grande do Sul tentou tirar do ar uma comunidade do Orkut e um vídeo do You Tube da candidatura de Manuela D’Ávila à prefeitura de Porto Alegre. A decisão, porém, logo foi revogada devido à total inviabilidade da medida, que afetaria frontalmente a candidata. Savazoni lembra que "a jovem candidata surgiu para a política justamente usando formas não convencionais de comunicação. A sua eleição para vereadora, quatro anos atrás, mobilizando jovens, transformou-a num fenômeno eleitoral".
Apesar das restrições draconianas, a internet deverá ter papel ainda mais sobressalente na batalha eleitoral deste ano. Na sucessão presidencial de 2006, ela já foi essencial para se contrapor às manipulações da mídia hegemônica. O próprio meio de comunicação no ciberespaço dificulta as medidas restritivas e possibilita que as idéias e propostas circulem mais livremente, interagindo com a sociedade. Atrativos e com qualidade, as mensagens podem atingir um grande universo de pessoas. Um vídeo de Obama, por exemplo, teve mais de 20 milhões de visualizações em poucos dias. Sem dúvida, a internet é um novo e poderoso instrumento de luta de idéias na sociedade. Fonte: Adital

* Jornalista

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Olimpíadas da China e lixo midiático

Altamiro Borges*

Num artigo corajoso e lúcido, o respeitado intelectual César Benjamin, que recentemente estreou uma coluna semanal na Folha de S.Paulo, desafinou o coro quase unânime da mídia burguesa na cobertura das Olimpíadas da China. “É deveras impressionante o lixo ideológico que a imprensa tem produzido ao cobrir as Olimpíadas”.

E segue: “Em geral, os repórteres buscam sempre os ângulos mais negativos, mesmo à custa de adentrar o ridículo”, dispara logo no primeiro parágrafo, o que pode até custar o seu reduzido espaço na Folha, um jornal que se diz pluralista, mas que tem marcado a cobertura com a mais rancorosa manipulação anticomunista, típica dos tempos da “Guerra Fria”.

O artigo relata “coisas incríveis” transmitidas pela TV que incomodam até os críticos à esquerda da complexa experiência chinesa. “O locutor ressalta o caráter repressivo do regime, enquanto as imagens mostram, como prova disso, um grupo de guardas de trânsito e câmeras de televisão que monitoram avenidas.

O locutor fala do controle do Partido Comunista sobre as pessoas, enquanto na tela aparecem torcedores que preparam uma coreografia. Manifestações com menos de cinco indivíduos são tratadas como acontecimentos épicos. Se houver um pouco maiores, é a prova de que o povo está contra o governo. Se não houver, é a prova de que a repressão é terrível”.

Já na mídia impressa, como a Folha, “repórteres monotemáticos escrevem todos os dias sobre a falta de liberdade de expressão, carregando nas tintas, para cumprir a pauta que receberam dos chefes. Se não cumprirem, serão demitidos. Defendem, pois, uma liberdade que eles mesmos não têm”.

Ao final do artigo, César Benjamin apela ao bom jornalismo, mais informativo e menos deturpado. “Agora que os jogos começaram, torço para que o lixo ideológico se retraia, para que finalmente possamos prestar atenção nos atletas. A festa lhes pertence. Tomara que seja linda”.

A campanha prévia de sabotagem
O texto indignado e corajoso da César Benjamin expressa bem o sentimento das pessoas com um mínimo de senso crítico. É deplorável assistir nas telinhas o destaque dado ao discurso petulante do carniceiro George Bush, na abertura dos jogos, em defesa dos direitos humanos.

Logo ele que é culpado por um milhão de mortos no Iraque invadido e dizimado; que incentiva abertamente as torturas nos campos de concentração de Guantánamo e Abu Ghraib; que banca a Patriot-Act, que restringe as liberdades democráticas nos EUA. É repugnante ouvir o italiano Silvio Berlusconi, o francês Nicolas Sarkozy e outros fascistas europeus condenando a falta de democracia na China, isto após aprovarem a abominável lei da “Diretiva do Retorno” contra os imigrantes.

Como já havia antecipado Michel Chossudovsky, professor da Universidade de Ottawa, a mídia mundial promoveu intensa campanha prévia visando sabotar a Olimpíada de Pequim. Sua última e desesperada cartada foi o vídeo do Partido Islâmico do Turkistão contendo ameaças de ataques terroristas na China.

No mês de julho, dois atentados no interior foram assumidos por esta seita, “apoiada pelo Serviço de Inteligência do Paquistão, que atua em estreita colaboração com a CIA, a agência de espionagem dos EUA”. A campanha midiática contou também com as ameaças do Dalai Lama, o “pacifista” que apoiou a invasão do Iraque, e com outras manipulações grotescas. Apesar da ofensiva, a Olimpíada começou e, como diz César Benjamin, “tomara que seja linda”. Fonte: DIAP

(*) Jornalista, é autor do livro “Sindicalismo, resistência e alternativas” (Editora Anita Garibaldi)

segunda-feira, 28 de julho de 2008

O jornalista precisa mudar!

Elaine Tavares - jornalista

No Brasil é assim. Alguns logotipos de imprensa só causam exasperação. É o caso dos da Rede Globo e o da RBS. Para a maioria dos militantes da luta popular eles são símbolos da mentira, da opressão e da manipulação. E essa não é uma reputação conseguida ao acaso. O fato é que a nave mãe (Globo) conseguiu impor um jeito de fazer jornalismo que impregna praticamente todas as redes, principalmente as suas filiadas, como é o caso da RBS. Teoricamente poderíamos enquadrá-lo no campo do jornalismo funcionalista, ou seja, aquele que apenas responde as seis perguntas – onde, quem, como, quando, o quê e por que – sem maiores preocupações com a análise ou o contexto da notícia. Mas, para além da prática do chamado jornalismo liberal (o que pretensamente mostra os dois lados), há toda uma tradição de ocultamento e meias verdades que forjam a usina ideológica da elite e da classe média brasileira. A televisão, com a Globo à frente, é uma fábrica de mentiras, na qual os pobre só aparecem como bandidos e os lutadores sociais como baderneiros “terroristas”.

Para os jornalistas que atuam nestas redes fica colocado, então, um grande desafio. Muitos deles – senão a maioria - estão bem integrados ao jeito de fazer jornalismo que consagra cada uma delas. Mas outros há que buscam fugir destas malhas de desinformação e precisam de um longo caminho até serem recebidos com confiança pelos movimentos sociais e pelos moradores das periferias. Não é sem razão que, em campos conflagrados, como é o caso do Rio de Janeiro atualmente, os jornalistas sejam alvos do ódio e da revolta popular. O que parece interessante é que a maioria das redes e dos periódicos, bem como os órgãos de classe dos jornalistas, não se faça perguntas sobre os por quês dos ataques e do ódio. Há notas de repúdio, há declarações e editoriais virulentos, mas nenhuma linha sobre o tipo de jornalismo que se anda fazendo por aí.

Sempre defendi que o jornalismo não se presta a adjetivos, tais como jornalismo policial, econômico, político, etc... O jornalismo é feito de um único pacote: análise do dia, investigação, contexto, impressão de repórter. Pode-se fazer isso nas mais diferentes áreas, mas é sempre o mesmo fazer contextualizado, partindo de uma situação singular e buscando narrar os fatos de maneira a levar ao leitor/espectador/ouvinte a universalidade do fenômeno, para que cada um possa fazer sua interpretação e chegar a suas próprias conclusões. Narrativas abertas, que respeitam a inteligência do receptor, mas que não se furtam a deixar bem claro o ponto de vista a partir do qual o repórter está narrando. Isso é jornalismo, feito de forma honesta e respeitosa.

Mas, o que se vê, cotidianamente nas televisões, o que se lê nos jornais, revistas e páginas da internet, ou o que se ouve no rádio, não merece ser chamado de jornalismo. Costumo chamar a isso de “gosma”, alguma coisa assim como aquela “coisa verde” de um velho filme de Boris Karloff, “A bolha assassina”. Ou seja, um negócio que vai tomando e engolindo tudo e todos, numa gosma informe e mal cheirosa. Com boa vontade poderíamos chamar a esse tipo de informação que campeia pelas redes informativas de “boa propaganda”, porque quase sempre se prestam a incensar pessoas, empresas, autoridades, fontes oficiais, geralmente os ricos e poderosos. Estes são os que têm voz e vez nas emissoras e só o seu ponto de vista é passado com respeito. Os demais, a ralé, a malta, os empobrecidos, estes estão fora, e quando falam são os coitados ou os marginais. Os exemplos são muitos.

A guerra dos madeireiros contra os índios na região Amazônica é legítima porque os empresários são gente trabalhadora que lutou muito para grilar terras. Já os camponeses do MST são terroristas porque querem terra pra plantar e soberania alimentar. Sempre há dois pesos e duas medidas para as lutas. Quem viu a cobertura da recente crise na Argentina envolvendo os ricos fazendeiros que deixaram o país desabastecido e trancaram estradas por três meses, sabe do que falo. Eram trancamentos legítimos, desobediência civil. Mas imaginem se o movimento de tranca-rua fosse levado a cabo por agricultores sem-terra, desalojados pela monocultura da soja? O que a mídia diria? Desobediência civil legítima ou terrorismo? É, assim é a nossa mídia de cada dia. E o que é pior, com os jornalistas cada vez mais enquadrados neste esquema infernal. Poucas vozes se escutam contra essa prática criminosa de encobrir, enganar. A ditadura midiática parece não ter muitos opositores.

Quando o jornalismo é usado para o crime

Por conta de toda essa prática não causa surpresa nenhuma que as entidades sindicais da categoria dos jornalistas se mantenham silenciosas diante dos fatos abomináveis que aconteceram na Colômbia envolvendo o jornalismo. Nenhuma nota nos jornais, nenhuma fala na CNN. Silêncio reverente. Afinal o que aconteceu foi lá longe, num longínquo país do norte da América do Sul. Mas, o que aconteceu na Colômbia é paradigmático e deve ser debatido à exaustão.

E o que aconteceu? Pois o governo de Álvaro Uribe, durante o comentadíssimo resgate de Ingrid Betancourt, saudado e incensado como um golpe fatal nos “terroristas” das FARC, usou de dois subterfúgios que deveriam ter levantado a ira mundial. No helicóptero que baixou em meio à selva estavam pintados dois logotipos respeitados por todas as gentes desta nossa América profunda: o da Cruz Vermelha e o da Telesur. A Cruz Vermelha, todos sabem, é um símbolo da ajuda humanitária em tempos de guerra. É quem leva esperança de cura para os que estão sob fogo cerrado. Tem lá suas idiossincrasias, mas, enfim, o símbolo desta entidade é reconhecido internacionalmente como uma entidade confiável. Já a Telesur, apesar de jovem, criada há pouco tempo pelo governo venezuelano, se firmou entre os movimentos sociais como uma emissora de televisão que garante o espaço para as vozes marginalizadas pelo sistema. É uma rede latino-americana que se propõe a mostrar a verdadeira cara desta parte do continente, colocada ao lado da comunidade das vítimas.

Pois o uso do logotipo da rede latino-americana não foi debatido por ninguém. Talvez porque pareça incrível aos jornalistas brasileiros uma emissora de televisão ser respeitada, amada e receber a confiança das gentes em luta. O que é normal por aqui é ver os carros das grandes redes sendo apedrejado e os profissionais sendo rechaçados pelos movimentos sociais, porque as gentes sabem que estas emissoras servem ao grande capital, aos poderosos, à elite cortesã das multinacionais e do jeito colonizado de viver.

O presidente Uribe não se constrangeu em confessar que usou os dois logotipos alegando que era necessário para que a operação desse certo. Ou seja, assumiu a ação criminosa e praticamente nenhum órgão de imprensa discutiu esta questão. É que o presidente da Colômbia se encaixa naquilo que Noam Chomsky chama de “vítimas amigas”. Isso significa que quando alguém amigos dos Estados Unidos ou do poder constituído comete algum crime, por ser amigo do “império”, sua ação criminosa fica obscurecida, não é alardeada. A notícia é dada, mas muito sutilmente. E assim foi.

Nem mesmo as entidades dos jornalistas, que se apressaram a gritar contra o governo venezuelano quando este usou do legítimo direito de encerrar a concessão de uma empresa que não cumpria a lei, divulgaram ou soltaram notas de repúdio.

Este pequeno texto procurar abrir a cortina espessa que atravessa o olho da categoria que deveria ser o arauto da verdade. Apesar da penúria das nossas redes de informação, apesar da falta de compromisso público, do descarado posicionamento em favor das elites e dos poderosos, da mentira e do acobertamento, ainda se pode pensar na possibilidade da prática de um jornalismo libertador. Um jornalismo de verdade, capaz de estar ao lado das vítimas do sistema opressor, que possa entregar às gentes em luta o espaço onde se expressar. Esse jornalismo existe e é respeitado. E tão respeitado que foi usado numa ação de guerra. Então por que os jornalistas brasileiros, suas entidades de classe, não falam sobre isso? Por que não informam, não contam a verdade, não denunciam?

Arrisco um palpite. Denunciar esta trama é reconhecer nosso próprio fracasso. Fracasso como jornalistas, incapazes de lutar contra o titã, submetidos a uma razão empresarial, praticando auto-censura, vilipendiando a prática do jornalismo, transformando nosso fazer em propaganda de um mundo falido. A Telesur não é o paraíso do jornalismo, é certo. Mas é uma proposta em construção. O que a torna única é justamente esse compromisso com o outro, a vítima, o sem lugar. É a explicitação de um jornalismo honesto, que se posiciona e deixa claro, ao telespectador, que se posiciona. Não é enganador como o que se pratica por aqui, que se diz imparcial, enquanto só expressa a visão de mudo dos que detém o poder. Termino dizendo o que tenho levado a vida a dizer: o jornalismo é um lindo fazer, capaz da análise, da contextualização, da impressão. Ele não está em crise. Porque o jornalismo não é um ente com vida própria. O que está em crise, ou mal formado, é o jornalista. Estes homens e mulheres jornalistas são os que precisam mudar para que nós, no Brasil, possamos avançar para uma verdadeira soberania comunicacional.

terça-feira, 8 de julho de 2008

COBERTURA ELEITORAL - O mesmo de sempre

Por Luciano Martins Costa - Comentário para o programa radiofônico do OI

A campanha eleitoral dos candidatos a prefeito começou neste domingo (6/7) em tom de quermesse. Nas principais capitais, os jornais noticiam passeios dos candidatos por feiras, festas populares e outros locais de concentração da população, com os tradicionais tapinhas e abraços.
Os jornais descrevem as caminhadas e aparições organizadas pelos marqueteiros de campanha, reproduzem declarações e registram episódios pitorescos, como escorregões, gafes e o desconforto de uns e outros na desagradável tarefa de pisar a lama da periferia.Em todos os relatos, as mesmas velhas promessas de todas as eleições.
As edições de segunda-feira (7) dos jornais não oferecem esperança de melhora na cobertura das disputas eleitorais. Embora, em alguns casos, tenham sido destacados repórteres experientes para acompanhar os candidatos, o resultado é o mesmo de sempre: apenas o factual, as declarações e, quando muito, o anedótico.

Pouco trabalho
Se o observador considerar que a cobertura de uma campanha eleitoral deve ter o objetivo de ajudar o eleitor a fazer uma escolha, o que se vê na abertura da temporada é um mau serviço.
Noticiar que tal candidato escorregou na beira de um córrego, ou que fulana comeu um bolinho de bacalhau não ajuda a avaliar as qualificações de um e outro em suas pretensões de administrar uma cidade. Revela, no máximo, que para ser candidato a prefeito é preciso ter sapatos adequados e estômago resistente.
Quase todas as capitais brasileiras cresceram desordenadamente nos últimos anos e acumulam problemas de moradia, de transporte, de saneamento básico e de violência.Os candidatos a resolver ou amenizar esses problemas estão nas ruas. E os jornais os tratam como celebridades que saem ao ar livre para testar a fidelidade dos fãs. Nenhum repórter se deu o trabalho de confrontar as promessas dos candidatos com os desafios que se apresentam a quem vencer a eleição.
A campanha começou, mas a imprensa ainda não se apresentou para fazer o seu trabalho. Fonte: Observatório de Imprensa

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Documentário resgata vida e assassinato de Crispim Mira

Os alunos do curso de Jornalismo pela Faculdade Estácio de Sá de Santa Catarina, Clésio Fermiano Júnior e Liliane Ribeiro e Ribeiro, vão apresentar no próximo dia 3, às 19h30, no auditório da instituição, um documentário inédito no Estado sobre a vida e morte do jornalista Crispim Mira.
Ele morreu no dia 5 de março de 1927, depois de 16 dias internado no Hospital de Caridade, em Florianópolis, com uma bala alojada entre a primeira e terceira vértebras. O motivo da violência foi uma série de artigos publicados no jornal fundado por ele, o Folha Nova, que denunciava a ineficiência do Porto de Florianópolis e o nepotismo no órgão. Segundo testemunhas, quatro pessoas invadiram a redação do jornal e consumaram o atentado. Crispim Mira foi o primeiro jornalista assassinado em Santa Catarina.
A produção conta com a participação de historiadores, filósofos, jornalistas, escritores além de um médico legista, um advogado criminalista e parentes dos acusados e de Crispim Mira. Os formandos fizeram uma simulação do crime com ajuda de colegas do curso e componentes da Cia. de Teatro Vanguarda de Florianópolis.
O documentário, produzido como trabalho de conclusão de curso, tem duração de 30 minutos e será avaliado por uma banca composta pelos professores da Estácio.

A imprensa sobreviverá à internet?

Venicio A. de Lima*

Qual poderia ser a questão recorrente em um Seminário sobre os ''200 anos da Imprensa no Brasil''?

Qual preocupação seria capaz de aparecer em praticamente todas as discussões reunindo alguns dos principais nomes do jornalismo brasileiro?

Qual questão seria capaz de ''costurar'' os debates em torno de uma temática dominante incluindo desde o jornalismo local, a história, a formação de opinião, a liberdade de imprensa, a legislação até o jornalismo contemporâneo?

A resposta, certamente, não será surpresa para muitos: a internet.

Sem desconhecer a contribuição específica e a estatura profissional de cada um dos mais de 20 convidados, quase todos, direta ou indiretamente, acabaram referindo-se à internet ou respondendo perguntas a ela relacionadas durante os quatro dias de debates promovidos pela Fundação Joaquim Nabuco em Recife, de 17 a 20 de junho.

No seminário que homenageou Barbosa Lima Sobrinho e teve como objetivo refletir sobre a história do jornalismo brasileiro, o que predominou mesmo foi certa perplexidade sobre o momento de transição pelo qual passa o jornalismo impresso e, sobretudo, a indefinição sobre o seu futuro e o das profissões a ele vinculadas.

Questões sem resposta
O que acontecerá com os jornais impressos diante do jornalismo online? Os jornais conseguirão sobreviver publicando hoje o que ''todo mundo'' já sabe desde ontem? Sobreviverão com o formato atual? Com o mesmo modelo de negócios? Serão gratuitos?

Os blogs de notícias reproduzem o jornalismo da grande mídia? O que os blogueiros fazem é jornalismo? Como fica a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão no espaço-livre da internet?

Quais as implicações dos e-mails, sites interativos, comunidades virtuais etc. para a sociabilidade humana? Como fica a preservação da memória nos tempos do jornalismo online? É possível construir com segurança a memória do ''espaço virtual''?

Afinal, quantas pessoas têm acesso à internet no Brasil? Qual a distribuição dos internautas por classe, escolaridade, níveis de renda, padrões de consumo? A internet é elitista e excludente?

A internet tem algum poder de influência no resultado eleitoral no Brasil? E em outros países? Existe alguma forma de se controlar a propaganda eleitoral na internet? Esse controle é feito em outros países? Qual a avaliação que se pode fazer das decisões do TSE sobre o assunto no Brasil?

Qual a distribuição comparativa do investimento publicitário na internet? Quais as projeções para os próximos anos? Quem controla a internet?

Evidentemente, não há respostas consensuais sobre essas questões nem elas surgiram no seminário de Recife.

A crise dos jornais
A Fundação Joaquim Nabuco certamente não pretendeu reduzir o debate ao jornalismo impresso. As condições históricas do nosso país sempre fizeram com que os jornais tivessem tiragem reduzida e circulassem quase exclusivamente no espaço público de uma elite letrada. É verdade que nos últimos anos o ligeiro crescimento da tiragem dos jornais brasileiros expressa a entrada no mercado das ''novas'' classes C e D. Apesar disso, não há dúvida que o rádio e a televisão são os dois veículos de maior penetração na população brasileira.

O que vem acontecendo aos jornais impressos, no entanto, não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Ao contrário. Pesquisas recentes indicam que, nos Estados Unidos, por exemplo, somente 19% da população entre 18 e 34 anos se declara leitora de jornais - que, aliás, desde 2004, ocupam o último lugar entre as fontes de notícia preferidas pelos leitores mais jovens. Esses dados não são novidade para aqueles que acompanham o setor, como não é novidade que a principal causa apontada para explicar a situação presente é o surgimento e o vertiginoso crescimento da internet. Daí porque a presença da internet como questão recorrente em um seminário sobre ''imprensa'' não chega a ser surpresa.

Riscos da concentração
Um dos riscos que se corre, no entanto, foi apontado pelo professor Sérgio Amadeu, da Fundação Casper Líbero, um dos especialistas convidados. Ele mostrou a contradição existente entre as duas principais tendências que dominam a consolidação das chamadas ''sociedade em rede'': a redistribuição do poder comunicacional que a digitalização possibilita através das novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) e a concentração e o controle de toda a infra-estrutura necessária nas mãos de poucas corporações globais.

Será que as promessas democratizantes da internet correm o risco de se frustrar pelas mesmas razões que têm provocado, por exemplo, a contaminação de coberturas jornalísticas - o chamado ''jornalismo sitiado'' produzido dentro de megaestruturas empresariais e, portanto, permanentemente sujeito às interferências diretas ou indiretas de interesses (não-jornalísticos) de seus controladores?

De qualquer maneira, o importante é que as questões sejam propostas e debatidas. E é isso que eventos como o promovido pela Fundação Joaquim Nabuco oferecem: oportunidade para se buscar e, eventualmente, encontrar diretrizes para uma imprensa e uma internet livres e democráticas, a serviço apenas do interesse público.

(*) Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política da Universidade de Brasília. Autor/organizador, entre outros, de ''A mídia nas eleições de 2006'' Editora Fundação Perseu Abramo – 2007. Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

O que vai na cabeça do juiz

Por Alberto Dines em 20/6/2008

A decisão do juiz auxiliar Francisco Carlos Shintate de multar a Folha de S. Paulo e a revista Veja pelas entrevistas com a pré-candidata Marta Suplicy, além de absurda é um retrato fiel do despreparo técnico e cultural da nova geração de magistrados. E não apenas dos magistrados, mas também dos membros do Ministério Público Eleitoral que assinaram a representação na qual baseou a sua decisão.
Os responsáveis por este novo surto censório, além de não conseguirem distinguir a diferença funcional entre jornalismo e propaganda, ainda não perceberam a diferença jurídica entre a mídia eletrônica e a mídia impressa.
Veículos de radiodifusão são concessões públicas, obedecem a regulamentos, estão sujeitos a penalidades se não os respeitarem. O que não foi o caso. Veículos impressos gozam do livre-arbítrio. Desde que não ofendam nem caluniem, só têm contas a prestar aos seus leitores.
Mais uma violência
A liberdade de imprimir é uma conquista do mundo ocidental que não poderia ser ignorada por homens públicos com tamanhas responsabilidades. Aqui convém retomar as críticas à lamentável amnésia que acometeu grande parte da nossa imprensa que ostensivamente virou as costas aos festejos dos 200 anos da sua criação ao longo deste mês de junho.
Está evidente que tanto o juiz como os promotores eleitorais são, na melhor das hipóteses, leitores relapsos e bissextos. Não sabem que é da tradição jornalística – e uma das obrigações fundamentais de uma imprensa responsável – publicar entrevistas com todos os candidatos antes das eleições majoritárias.
O juiz Shintate ignora esses dados comezinhos a respeito da imprensa simplesmente porque esta imprensa preferiu ignorar a sua data magna como que envergonhada de seu passado de lutas. Se o magistrado soubesse que o primeiro periódico a circular no Brasil era impresso em Londres para escapar da censura, certamente teria mais cuidado para não ser confundido com os inquisidores que condenaram o país ao atraso por tanto tempo.
A imprensa brasileira é vítima agora de uma inominável violência. Talvez isso a convença a abandonar o papel de vilã que periodicamente desempenha com tanto gosto. Fonte: Observatório de Imprensa

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Eles não têm assessores de imprensa

Por Sylvia Moretzsohn em 19/6/2008

O Rio do lado sem beira desceu à sua maneira – como diz a canção – e enfrentou o Batalhão de Choque na sede do Comando Militar do Leste, ao lado da Central do Brasil, em seguida ao enterro de três jovens moradores do Morro da Providência, ocupado desde dezembro do ano passado por forças do Exército, alegadamente para dar apoio a obras de reforma de centenas de casas da comunidade.
Segundo o noticiário, os rapazes voltavam de um baile funk quando foram abordados por militares, que os revistaram; presos por desacato e levados a um quartel, acabaram torturados e assassinados, supostamente depois de terem sido entregues por esses mesmos militares a traficantes de um morro próximo, dominado por uma facção rival. Seus corpos foram encontrados num lixão, num município da Baixada Fluminense.
Assim que a notícia correu, no sábado (14/6) à noite, a revolta explodiu: vários ônibus foram incendiados ou depredados nas imediações da favela, os operários que trabalhavam nas obras decidiram parar em sinal de protesto, moradores tentaram bloquear o viaduto que passa ao lado do morro e é vital para o trânsito na cidade.
O ápice foi na segunda-feira (16): primeiro a tensão no enterro, depois a passeata até a sede do Comando, finalmente o confronto. Bombas de efeito moral, spray de pimenta, tiros de balas de borracha, cães e golpes de cassetete contra as pedras e o alarido da multidão enfurecida, que promovia estragos a esmo em meio a outra multidão apavorada, que tentava fugir daquilo e voltar para casa.
Cidadãos inteiramente loucos com carradas de razão – exatamente como diz a canção.
Perguntas tardias
O Globo deu amplo destaque ao conflito e relacionou na primeira página dez "perguntas sem resposta", que poderiam ser resumidas essencialmente em duas: por que o Exército Brasileiro foi mobilizado para um trabalho que inevitavelmente incluiria a função de polícia se não há deliberação do Congresso Nacional nesse sentido? Por que o Exército Brasileiro foi destacado para atuar num reduto eleitoral particularmente vistoso de um senador evangélico de grande influência, candidato a prefeito e colega de partido do vice-presidente da República? Por quê? Porque...
Por que O Globo apenas agora se lembra de fazer essas perguntas? Por que não as fez há seis meses, quando começou a ocupação do morro? Naquela época – um 13 de dezembro, data marcante na memória nacional – o jornal registrava singelamente que "as obras do projeto Cimento Social, uma parceira do Ministério das Cidades com o Exército, começam hoje no Morro da Providência, no Centro. A proposta é reformar as fachadas e os telhados de 780 casas da favela". (Na verdade, 782, pois para um projeto como esse é preciso mesmo contar nos dedos e anotar bem o nome dos beneficiários). No dia seguinte, no mesmo tom, informava que o "Exército ocupa vários pontos do Morro da Providência".
O Exército sobe o morro, não encontra qualquer resistência, e ninguém desconfia de nada? Ainda mais que naquele mesmo morro, cerca de um ano e meio antes, no episódio ainda hoje nebuloso do sumiço de armas de um quartel, houve intensa troca de tiros com os traficantes locais, resultando inclusive na morte de um rapaz, no meio do fogo cruzado a que se costuma dar o nome de "bala perdida".
Só quatro meses depois, em 6 de abril, manchete do diário Extra investiria na explicação para tamanha calmaria: "Tráfico propôs trégua para Exército trabalhar em paz na Providência". (Se a iniciativa partiu mesmo dessa entidade chamada "tráfico", ou se teve outra origem, é coisa de menor importância agora). O Globo, um mês e meio antes (em 20 de fevereiro), preferiu acreditar na fantasia de que "Providência não tem mais venda de droga". A informação era atribuída ao Exército e repetia matéria publicada na véspera pelo jornal O Dia, que afirmava: "Exército expulsou tráfico do Morro da Providência", e que abria de maneira triunfal e inequívoca:
"A presença diária de 200 homens do Exército no Morro da Providência, no centro da cidade do Rio, foi suficiente para expulsar os traficantes que dominavam a comunidade. O que restou do grupo se resume a poucas pichações nas paredes das casas ou às iniciais da facção gravadas nas escadarias. A expulsão dos criminosos é reconhecida pelos militares e pode ser constatada em uma caminhada pelos becos da comunidade, que não apresentam olheiros ou soldados armados do tráfico."
Surpreendentemente, menos de um mês depois, em 11 de março, a Folha de S.Paulo faz a gentileza de informar exatamente o contrário: "Exército admite que tráfico ainda atua em morro ocupado por militares no Rio". E aponta a origem do equívoco:
"O Exército admitiu pela primeira vez que o tráfico ainda opera no morro da Providência, na Gamboa (zona portuária do Rio), ocupado há quase três meses pelos militares para a realização de reformas em casas da população de baixa renda. Em 18 de fevereiro, o Comando Militar do Leste levou a imprensa à favela para anunciar publicamente que havia expulsado os traficantes." [Destaque meu.]
O Comando Militar do Leste levou a imprensa à favela para dar uma notícia do seu interesse e a imprensa acreditou. E fez o alarde correspondente à suposta grande vitória do Bem contra o Mal.
Da mesma forma, a imprensa achou perfeitamente normal algo que estranha agora: o acordo do Ministério das Cidades com o Exército para a tal obra do "Cimento Social" que privilegiava escandalosamente um projeto eleitoreiro do "bispo" candidato a prefeito do Rio de Janeiro, à revelia do debate público que obrigatoriamente precisaria ser travado para a adoção de uma medida como essa.
É preciso estar atento e forte...
Ler jornal, ouvir o noticiário radiofônico, assistir a telejornais, são tarefas muito difíceis. É preciso estar atento e forte – como diz outra canção, bem mais antiga. E não conseguimos estar atentos o tempo todo. Tendemos a acreditar no que se publica, mesmo porque a principal arma de um jornal é a sua credibilidade, e além disso o hábito de ler jornal, ouvir rádio, assistir ao telejornal, está incorporado ao nosso cotidiano. Por isso tantas coisas nos escapam, e por isso também momentos de grande comoção como este servem para alertar-nos para a necessidade de um recuo que nos leve a pensar em como chegamos até aqui.
Então, tudo se encaixa: a mal disfarçada campanha da mídia em geral em favor da atuação do Exército no combate à criminalidade não poderia mesmo permitir críticas ou questionamentos diante de uma medida perfeitamente adequada a esse propósito. E as várias assessorias de imprensa – do governo, do Exército, do candidato – se aproveitam disso para "plantar" as informações de seu interesse.
Até que três rapazes um pouco mais abusados, ou um pouco menos dóceis – quem sabe ovelhas desgarradas do rebanho do "pastor" –, ousam desafiar o poder da farda e conhecem um fim trágico que detona a revolta.
Porém a "comunidade" não tem assessores. Reage à sua maneira: as mães envelhecidas e desdentadas no desespero da perda dos filhos, os amigos e vizinhos queimando ônibus e quebrando o que vêem pela frente ou empunhando cartazes improvisados, frases precárias escritas num frágil pilot sobre cartolina com uma tarja negra à volta em sinal de luto. Ou, ainda, apela a gestos tão simbólicos como a retirada da bandeira nacional hasteada no alto do morro pela força armada, ou a exibição de um boneco de Judas fardado, pendurado do lado de fora de uma casa sem reboco, num ponto mais visível do morro.
É tudo, e é pouco, porque sempre haverá quem diga que estão a serviço dos traficantes, o que é a forma mais óbvia de deslegitimar o protesto e simplificar a questão. Afinal, dois dos jovens assassinados tinham "passagem pela polícia" – quase uma regra para quem nasceu e vive na periferia social –, de modo que estavam marcados como a flor de lis no corpo dos bandidos de outrora. O outro tinha ficha limpa, mas era questão de tempo.
Agora os jornais começam a fazer perguntas, agora aparece um documento confidencial do Exército informando que a presença dos militares no morro era mesmo para policiar a área, agora os jornalistas fazem as contas e constatam que a reforma das casas custará mais de 60% do preço de uma casa nova. Mas agora é tarde.
A tragédia em "alta definição"
A força das cenas do conflito, a intensidade do drama, a aberração e o grau de barbárie que a situação expõe, nada disso foi capaz de mudar a abertura do Jornal Nacional de segunda-feira (16/6), que destacou o fato na escalada mas começou com a matéria prevista: uma reportagem sobre o câncer de mama, anunciada pela sorridente musa do noticiário, que retornava ao trabalho depois de dez dias longe das câmeras, justamente para a realização de uma pequena cirurgia nos seios, preventiva de um mal maior.
No encerramento, a mesma musa sorridente anunciava a boa nova: o início da transmissão digital da emissora no Rio de Janeiro, dali a alguns minutos, na novela das nove.
De fato é reconfortante saber que, em breve, a noite da grande fogueira desvairada poderá ser apreciada em "alta definição". Fonte: Observatório de Imprensa

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Mídia, o aparato ideológico da globalização

Por Henrique Costa em 31/5/2008

"O mais difícil de perceber não é a informação distorcida, mas a informação oculta". Em torno dessa e de outras idéias o jornalista, escritor e teórico da comunicação Ignacio Ramonet apresentou, no final de maio, no Instituto Cervantes, em São Paulo, a palestra "Informação, poder e democracia", como parte do ciclo "Pensar Iberoamérica" do instituto espanhol. Com a mediação do sociólogo Emir Sader, o tom foi não apenas de denúncia da grande imprensa, mas também uma reflexão sobre a indústria cultural e as possibilidades de uma imprensa alternativa.

Membro do conselho editorial do Le Monde Diplomatique – um dos exemplos mais bem-sucedidos de imprensa alternativa no mundo – e diretor do jornal até recentemente, Ramonet foi descrito por Sader como um "intelectual da esfera pública". De fato, as inúmeras atividades deste galego que foi aluno de Roland Barthes comprovam sua vocação para o ativismo público, como a fundação das ONGs internacionais ATTAC e Media Watch Global e como um dos fomentadores do Fórum Social Mundial.

O evento no Instituto Cervantes serviu fundamentalmente para reafirmar suas posições para um público restrito, mas, em geral, pouco familiarizado com o debate sobre democratização da comunicação. Inclusive porque, em uma de suas primeiras afirmações, Ramonet diria que "muitos militantes de esquerda que tomaram consciência da luta contra o neoliberalismo não tomaram a consciência da necessidade de democratizar os meios de comunicação de massa". Ou seja, é evidente para ele que qualquer transformação social depende da desconcentração dos meios de comunicação das mãos de poucos afortunados que os usam para seus fins particulares. No entanto, os obstáculos para isso são imensos.

Emir Sader colocou em pauta um outro ponto grave na cobertura jornalística, que diz respeito à impossibilidade de negar ou mentir sobre pontos inegavelmente positivos, como, por exemplo, os ganhos sociais do regime cubano ou os avanços da nova constituição boliviana. A saída, considera, é simplesmente omitir. "Como não tem como falar mal, não falam. E essa omissão é gravíssima", afirmou Sader.

Kane e Murdoch
Ramonet listou uma série de exemplos que colocam em destaque o cinema blockbuster americano, para traduzir a idéia de que a estratégia de distração pode ser muito mais eficaz para o status quo. Na cultura de massas se reconhece o direito à distração, ou seja, a possibilidade de assistir a um filme desarmado, sem ressalvas. E é justamente nessas ocasiões que as idéias dominantes penetram com mais facilidade, diferentemente do que aconteceria se assistíssemos a um filme "político".

Dentro desse esquema, a dominação cultural é tão importante quanto a militar. A idéia exposta tanto por Ramonet quanto por Sader de que a guerra imperialista hoje se faz tanto pela via militar quanto pela cultural acusa que é justamente através dos meios de comunicação que se produz os consensos e legitimações. "Em vários processos de dominação, a violência é usada numa primeira fase, mas a guerra não pode durar tanto. A segunda fase é justamente conquistar mentes", afirmou Ramonet. A última investida, conta, é oferecer a idéia de que globalização financeira é igual à modernidade. "Os meios de comunicação têm a função de ser o aparato ideológico da globalização."

Muito distante disso está o conceito verdadeiramente francês de que a imprensa se constituiria em um "quarto poder". Poder este que, diferentemente do que se compreende nos tempos atuais, seria o responsável por fiscalizar os três poderes de Montesquieu, lembra Ramonet. Curiosamente, assume o jornalista, a concentração cada vez maior dos meios de comunicação tem, inclusive, deixado obsoletos os grandes arquétipos da mídia tradicional. O Cidadão Kane, de Orson Welles, nada mais era do que um magnata do final do século 19 estabelecido em seu próprio país e eivado de alguma ética. "Comparem Kane com Rupert Murdoch!", enfatiza Ramonet, citando o bilionário dono de canais de TV, jornais, revistas e todos os tipos de mídias nos cinco continentes, algumas delas acusadas de dar suporte, por exemplo, a já comprovada farsa da invasão do Iraque pelo governo norte-americano.

Observatórios de mídia
A questão é que a imprensa trocou a cidadania pelo espetáculo. Para o jornalista, a lógica em que atuam as grandes empresas de mídia não mais diz respeito ao velho esquema de vender informação ao público, mas sim vender público aos anunciantes, citando o exemplo dos jornais gratuitos. "Há uma tendência de baixar o nível para atingir uma faixa maior de público. Além de tudo, se você vai dar a informação de graça, não vai querer gastar muito para produzi-la". Isso mesmo que, de modo geral, o nível educacional melhore e essa contradição fique ainda mais evidente.

A globalização é uma máquina de frustração, esclarece Ramonet. Mas contra a hegemonia do pensamento único, é possível a constituição de uma imprensa alternativa viável? "Muito difícil", diz ele, justamente pelo que dizia há pouco. Essa mídia estaria disposta a baixar sua qualidade para atingir o grande público? O jornalista, no entanto, vê boas perspectivas quando se fala nos observatórios de mídia e acredita que o Brasil está bem servido nesse quesito. Além disso, se entusiasma com as TVs públicas, desde que se entenda que elas não podem ser governamentais. "Não se pode ter medo da democracia".

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Por que a imprensa grande não noticia o que atinge a maioria da população?

A mídia geralmente tem preferência por divulgar notícias dramáticas, números sensacionais e “furos jornalísticos”. Os temas sociais são recorrentes, mas a abordagem não gira em torno de políticas públicas. É esse o diagnóstico feito pela jornalista Beatriz Barbosa em palestra sobre o desafio de aumentar a pauta de políticas públicas na grande imprensa, no último dia 5 de maio, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ela ressaltou ainda que a política pública até pode ser uma pauta, mas não como um processo. Geralmente a cobertura é desqualificada de modo apenas a reafirmar políticas públicas ruins.

Um desvio de verba de determinado programa social geralmente é notícia, mas não são notícias, por exemplo, as conferências nacionais em diversas áreas como saúde e educação. Essas conferências, que só na área de saúde já foram realizadas mais de uma dezena, se configuram, de acordo com Beatriz, como uma etapa da política pública desconsiderada pelos grandes veículos de comunicação.

“A Conferência Nacional de Juventude recentemente reuniu dois mil jovens em Brasília, e nem uma linha foi escrita na grande imprensa sobre o assunto”, exemplifica.

A palestrante foi uma das convidadas da disciplina e curso de extensão de Jornalismo de Políticas Públicas Sociais, uma parceria entre o Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência (Netccon), da Escola de Comunicação da UFRJ, e a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi).

Beatriz Barbosa é jornalista e especialista em direitos humanos, além de coordenadora do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, um dos principais movimentos que lutam no Brasil pela democratização da comunicação.

Origem elitista dos jornalistas é uma das raízes do problema
Para Beatriz, a pergunta “de onde vem o jornalista?” pode responder uma das origens da ausência de cobertura de políticas públicas na grande mídia. Grande parte dos que ingressam nos cursos de jornalismo são filhos de classe média ou alta, assim, “as grandes mazelas sociais não fazem parte do cotidiano desses futuros jornalistas”.

Outra origem da questão destacada pela jornalista é a formação do comunicador: mais técnica do que humanista e com foco no mercado. Essa formação também não possui, de acordo com ela, uma oferta de conhecimentos mínimos sobre o tema políticas públicas.

Em um segundo bloco de situações que podem causar essa ausência de cobertura, estão as condições de trabalho dos jornalistas. Segundo Beatriz, com as redações bastante enxutas, condições precárias de trabalho, a informação transformada em lucro e a falta de independência do jornalista na escolha da pauta, o resultado é um jornalismo que não aborda as questões que atingem a maioria da população.

Ainda uma terceira raiz do problema apontada por Beatriz é a concentração dos meios de comunicação. A jornalista lembra que apenas 9 famílias controlam 85% da informação no Brasil, apesar do artigo 220 da nossa Constituição proibir o monopólio.

“Só falta fabricarem as pessoas que vão assistir aos programas!”, brinca, sobre o fato de uma mesma empresa deter todo o processo de produção e distribuição da informação.

Soluções
Nas redações, uma formação continuada dos jornalistas, a investigação de dados e informações públicas, a cobertura do processo das políticas públicas, podem, de acordo com a palestrante, serem passos na solução do problema. Além disso, a prática de ouvir os beneficiários dessas políticas e de estabelecer canais de comunicação entre a população e a imprensa, como ouvidorias e a própria figura do ombusdman, seriam iniciativas importantes.

Na universidade, a criação de disciplinas obrigatórias específicas sobre as políticas públicas e projetos de extensão, também atuariam nesse sentido.

Essas iniciativas, para Beatriz, devem ser somadas a outras com foco específico na sociedade em geral, como a criação de disciplinas nas escolas sobre leitura crítica da mídia e a própria formação do cidadão sobre o papel da Estado e da Sociedade. Nesse sentido, o direito à comunicação deve ser entendido como um direito tão importante quanto qualquer outro.

“Mas enquanto não entendermos que a notícia deve ser de interesse público e entendermos o ser humano como sujeito da história, não mudaremos esse diagnóstico”, afirmou Beatriz Barbosa. A jornalista mencionou ainda que quando se trata de políticas públicas de comunicação, aí é que o tema não aparece de maneira nenhuma na grande imprensa. (Fonte: Núcleo Piratininga de Comunicação)

domingo, 11 de maio de 2008

RÁDIO SINTRAJUSC já disponibiliza arquivos de notícias e entrevistas em MP3

O SINTRAJUSC disponibiliza, desde sexta-feira, 9 de maio, programas pré-gravados com notícias e entrevistas. Os arquivos irão mudar sempre às sextas. Um dos coordenadores do Sindicato, Robak Barros, fará um boletim semanal sobre as atividades do Sindicato. A RÁDIO SINTRAJUSC tem ainda notícias e entrevistas sobre temas de interesses dos servidores. Acompanhe em http://www.sintrajusc.org.br/, no link Rádio SINTRAJUSC.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Sessão Especial discute questão palestina

No dia 15 de maio, a partir das 19 horas, haverá Sessão Especial a respeito da questão Palestina na Câmara Municipal de São José. Os debatedores são Fawzi El Mashni, ex-embaixador da Autoridade Palestina no México, e Youssef Ahmad Youssef, professor da UNISUL. A Câmara Municipal de São José fica na Praça Arnoldo de Souza, 38, Centro Histórico de São José.

Rádio Fenajufe: Coordenador da Fenajufe fala sobre plano de carreira

Com o objetivo de dar continuidade à série de entrevistas sobre plano de carreira, a Rádio Fenajufe transmite logo mais às 12h, no boletim Fenajufe Notícias, entrevista com José Moraes Júnior, coordenador de comunicação da Fenajufe. Moraes foi um dos palestrantes do 1º Encontro Nacional sobre Plano de Carreira, realizado no dia 28 de março, em Recife, ao lado dos coordenadores da Fenajufe Roberto Policarpo e Ramiro López e também do coordenador do Sintrajud/SP Démerson Dias.

A entrevista com Moraes Júnior será reprisada no boletim Fenajufe Notícias das 16h desta sexta-feira e nos boletins da próxima semana. Acesse a Rádio Fenajufe, no endereço
www.fenajufe.org.br, e clique no link localizado no lado direito da página. Fonte: Fenajufe

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Pressionado pela Rede Globo, governo Lula suprime um fuso horário

O Brasil passará a ter três fusos horários, e não quatro, como hoje. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou lei que adianta em uma hora os relógios do Acre e de parte do Amazonas e do Pará. O motivo, no entanto, não diz respeito a uma necessidade de Estado ou a uma reivindicação da população local, mas sim aos interesses econômicos da Rede Globo. A mudança tampouco foi precedida de um debate com os principais interessados.
No dia 20 de abril, entrou em vigor portaria determinando que as emissoras de televisão adaptem sua programação aos fusos horários vigentes no país. Apenas quatro dias depois, o presidente Lula aprovou a lei. O senador acreano Tião Viana (PT), autor do projeto que originou a lei 11.662/08, argumenta que a medida pretende “facilitar o transporte aéreo, as comunicações e a integração com o sistema financeiro nacional”. Porém, de acordo com Diogo Moysés, do coletivo Intervozes de Comunicação, a diminuição do número de fusos no Brasil está intimamente ligada a uma pressão exercida pelas Organizações Globo.
Pela portaria 1.220/07 – aprovada no começo de 2007, mas que teve sua aplicação adiada por diversas vezes –, as TVs precisam alterar suas transmissões devido à classificação indicativa dos programas de acordo com as diferentes faixas etárias. Para entender. Com duas horas a menos em relação a Brasília, a novela das “oito” da Globo passa às 19 horas no Acre. Porém, nesse horário, muitas pessoas com menos de 14 anos (que é a classificação indicativa do programa) estão predispostas a assistir a trama.
Se a Globo se predispusesse a obedecer as normas da portaria, teria, no mínimo, duas possibilidades, segundo Diogo Moysés. Uma delas seria adequar a novela das “oito" às crianças de 10 anos. A outra seria readequar as grades da região Norte. “Mas eles (Globo) se recusam a fazer isso”, garante.
Sobre o protagonismo da Globo, Moysés é categórico: “o motor da pressão foi exclusivamente dela; as outras emissoras já tinham se comprometido a adequar sua programação à classificação indicativa”. Segundo o membro do Intervozes, essas redes não teriam que fazer grandes mudanças na grade, simplesmente precisariam deixar a grade um pouco mais light em determinados horários.
Futebol sagrado
Nas últimas semanas, a Associação Brasileira de Rádio e Televisão (Abert) encomendou ao Ibope uma pesquisa, pois queria comprovar que os cidadãos dos Estados afetados pela lei 11.620/08 seriam contra a adequação da programação ao fuso horário. A iniciativa falhou quase que totalmente: a maior parte dos entrevistados apoiou o respeito à classificação indicativa.
A única reação negativa da população se deu em virtude do “cumprimento das regras” mencionadas pela pesquisa, às quais impediriam a transmissão a vivo dos jogos de futebol. Segundo o Intervozes, a pergunta foi colocada de forma descontextualizada, pois, jornalismo e eventos ao vivo podem ser transmitidos em qualquer horário. Assim, o fato de a Globo atrasar a exibição dos jogos nessas regiões nas quartas-feiras foi uma opção da emissora.
“Foi uma chantagem explícita. Ela simplesmente adiou toda a programação, fazendo com que o jogo não fosse mais transmitido ao vivo”, afirma Moysés, que atesta ser a novela, que antecede o jogo, o real problema. “É óbvio que ninguém quer ver VT de jogo”, pondera. Fonte: Brasil de Fato

A ética das cervejas

Por Guilherme Cardoso em 6/5/2008

Eis aí um crime ético de todo tamanho e que ninguém tem coragem de denunciar. Talvez até tenha, mas denunciar onde, em qual veículo, se o interesse da mídia é o mesmo? É o anúncio das empresas de publicidade em defesa da liberdade de propaganda das bebidas alcoólicas. Neste caso, a cerveja. E vem sob a chancela da Abap (Associação Brasileira das Empresas de Publicidade). Em jogo, altas verbas de anunciantes.
As peças publicitárias, divulgadas nos horários nobres das principais emissoras de televisão, dizem que não se pode tirar a liberdade de criação e divulgação de um produto, sob a alegação de que a sua mensagem esteja induzindo as pessoas a consumirem mais essa mercadoria. E que, no caso das cervejas, tenta nos convencer a Abap, não é a publicidade da bebida que faz os jovens beberem mais e tampouco não pode ser ela a responsável pelo aumento dos acidentes e mortes envolvendo motoristas embriagados. Freud pode explicar.
Que grande hipocrisia contêm essas mensagens dos publicitários... Quer dizer que a propaganda de qualquer produto não tem a finalidade de fazer com que as pessoas consumam mais? Então, de nada vale o anunciante gastar milhões de reais com a produção e veiculação de um produto se a própria entidade que reúne os publicitários anuncia que a propaganda não tem toda essa força. É o que está claro nas peças publicitárias que defendem a propaganda de cervejas em qualquer horário nas televisões.
Interesses econômicos
Pelo religioso texto que circula no horário mais caro da televisão, a propaganda de bebidas não tem culpa alguma se as pessoas bebem demais e saem rodando pela madrugada, sem noção e sem carteira, e na contramão, causando mortes, destruindo famílias. E que aquelas mulheres boazudas e quase nuas, utilizadas nos anúncios, simbolizando a loira gelada é apenas ilustração, puro subjetivismo de quem vê.
Para as agências de publicidade e, de quebra, para os veículos de comunicação, é contra a democracia qualquer tipo de limitação à publicidade de cervejas, pois o problema, na verdade, é o das famílias que não saberem educar os filhos, dos governos não construírem boas estradas e das autoridades policiais não fiscalizarem, prenderem ou punirem os infratores.
São os interesses econômicos sepultando a ética da razão.
Com a palavra, os pais, educadores, médicos, autoridades, psicólogos e psiquiatras. Estes, para dizerem se elas, as agências de publicidade, perderam a razão, ou se nós, cidadãos comuns, é que perdemos a direção e estamos embriagados. De tanta propaganda de cerveja. Fonte: Observatório de Imprensa

MÍDIA & PRECONCEITO - O escândalo Andréia Albertine e Ronaldo

Por Marcelo Daniliauskas e San Romanelli Assumpção em 6/5/2008

Lendo artigos sobre o caso Andréia Albertine e Ronaldo, uma coisa nos chamou a atenção: a grande maioria dos textos tratava Andréia de o travesti, ao invés de a travesti. Afinal de contas, ela utiliza um nome feminino.
Esse detalhe nos motivou a ler vários jornais e sites sobre o caso. Em uma pesquisa mais detalhada na Folha Online e no Estadão, de uns 20 artigos, somente um, no Estadão online, tratava Andréia por ela.
Começamos a prestar atenção nos detalhes das matérias, especificamente na linguagem e no conteúdo.
Como Ronaldo é a estrela, seu nome sempre aparece primeiro: o escândalo de Ronaldo com travestis. Andréia sempre é coadjuvante, sempre ocupa o segundo lugar. Quando ele é apresentado, pois dispensa apresentações, é o atacante do Milan, tem uma profissão de prestígio. Andréia sempre é apresentada e classificada: ela é um travesti (sic) e prostituta, ambos socialmente estigmatizados, inclusive tratados como sinônimos.
Desrespeito e desqualificação
O nome social Ronaldo fala por si só. É Ronaldo e ponto. Nenhum artigo menciona seu nome completo. Andréia quase nunca é citada como Andréia: primeiramente, é apresentada equivocadamente como o travesti, depois os artigos se referem ao nome (masculino) de registro, para depois dizer que "ele é conhecido por" (sic) Andréia Albertine.
Ao invés de utilizarem o nome pelo qual Andréia se apresenta em seu convívio social, as matérias utilizam o seu nome de registro. Além disso, seu nome quase sempre vem precedido do artigo o travesti, dobradinha que é reforçada ao longo das notícias.
Muitos artigos têm tratado dos problemas que Ronaldo pode ter por conta do escândalo, mas até agora não vi nenhum falando sobre as escandalosas mazelas que afetam Andréia Albertine:
- A exposição pessoal de Andréia, por meio da exploração de seu nome de registro completo;
- O desrespeito à identidade de Andréia por utilizar o seu nome de nascimento ou constantemente referir-se a ela pelos pronomes ou artigos masculinos; e
- A agressão da mídia que repetitivamente utiliza o travesti junto ao seu nome de registro, categorizando Andréia, tentando desqualificá-la e ao seu discurso por ser travesti.
Identidade de gênero distinta
O termo travesti é carregado de conotações sociais negativas e a mídia, ao utilizar a expressão de modo preconceituoso e ao estereotipar Andréia Albertine, limita-se a reproduzir estigmas e preconceitos.
Além de todo o oba-oba, não vimos sequer um artigo esclarecendo o que é ser travesti, explicando a necessidade da utilização do artigo feminino por se tratar de uma questão de respeito a uma identidade, e ainda pior: não se questionam os preconceitos, discriminações, violências que as travestis passam ao longo de suas vidas, que muitas vezes são fatores que determinam a prostituição como principal saída.
A prostituição é uma profissão e as prostitutas são pessoas dignas. O que questionamos aqui é que cidadania temos quando a principal possibilidade de sobrevivência de uma pessoa se restringe sobretudo a uma única profissão. A nossa sociedade fecha as portas e oportunidades para as travestis, simplesmente por viverem uma identidade de gênero distinta do que é considerado "socialmente correto".
Estigmas sociais
Neste ano comemoramos 20 anos da Constituição Federal de 1988 e 60 anos da Declaração dos Direitos Universal dos Direitos Humanos. Estamos passando por um processo democrático de conferências GLBTT nos âmbitos municipal, estadual e federal, com o tema: o caminho para garantir a cidadania de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais.
Acreditamos que neste momento de discussão sobre cidadania, esse tipo de exposição pessoal e desqualificação social a que Andréia está sendo submetida não pode passar batido, pois além de afetar diretamente esta pessoa, demonstra o quanto a sociedade está despreparada para lidar com as questões e reivindicações GLBTT.
Andréia Albertine é uma pessoa, um ser humano que tem uma história e, como todas as travestis, sofre com estigmas sociais e tem sua cidadania desrespeitada. Isso, sim, deveria ser notícia. Fonte: Observatório de Imprensa

terça-feira, 6 de maio de 2008

Contestado tem Agência de Notícias Populares

Com os principais meios de comunicação de Santa Catarina dominados por uma só empresa, é cada vez mais importante o incentivo às mídias como a Agência Contestado de Notícias Populares, AGECON. Depois de seis meses de trabalho, a Agência está no ar, ainda em fase experimental, fruto do trabalho de várias organizações sociais como a CRESOL - Tangará, Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA, Movimento dos Atingidos por Barragem – MAB, Pastoral da Juventude Rural – PJR, Sindicato dos Servidores Municipais de Fraiburgo – SINTSER, Associação Paulo Freire de Educação e Cultura Popular de Fraiburgo – APAFEC e Jornal Vitória.
De 13/04 até dia 28/04 o site da AGECON registrou 1.170 acessos, uma média de 78 acessos diários, e é mais um importante passo que os movimentos sociais da região do Contestado dão no sentido de ocupar o latifúndio da comunicação.
Para saber mais sobre a AGECON basta acessar o site:
www.agecon.org.br A missão da Agência é ser um instrumento de luta, divulgando as ações e notícias dos movimentos e outras organizações sociais, anunciando um projeto popular para o Brasil e denunciando a criminalização feita aos movimentos e organizações sociais pelos grandes meios de comunicação. Fonte: http://www.desacato.info/

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Página do Sindicato terá Rádio e ícone sobre Plano de Carreira

O SINTRAJUSC disponibiliza, nesta e na próxima semana, novidades na página www.sintrajusc.org.br para ampliar a comunicação com os filiados. Confira:

*Rádio Sintrajusc - programação em arquivo pré-gravado, que será disponibilizado às sextas-feiras, com resumo da semana, notícias e entrevistas. Estréia no dia 9 de maio com entrevista sobre Plano de Carreira

*Rádio Fenajufe - enlace direto para a Rádio da Federação, que tem programação 24 horas

*Blog Sintrajusc - enlace para o blog www.sintrajusc.blogspot.com, com notícias sobre as lutas de outras categorias do serviço público federal e dos trabalhadores em geral, em Santa Catarina e nos outros estados do país, informações sobre temas como meio ambiente, saúde e o papel da mídia, entrevistas curtas filmadas e disponibilizadas em arquivo digital, enquetes e espaço para comentários

*Enlace Plano de Carreira, com todas as informações sobre esse assunto produzidas pela Fenajufe e pelo Sindicato

*Ícone Assine O Grito. Assim como faz na Capital, onde o jornal é entregue na mesa do servidor, o SINTRAJUSC quer levar o jornal na casa do filiado nas demais cidades do Estado. A partir da edição de JUNHO de 2008, em vez de ir para o local de trabalho, o exemplar irá somente para o endereço informado pelo funcionário ao Sindicato. Para assinar basta o servidor acessar o enlace ASSINE O GRITO na página do Sindicato (no menu à esquerda) informando nome e endereço completo com CEP e telefone. Informamos que os servidores que trabalham em Florianópolis e em São José irão continuar recebendo seu exemplar apenas no setor de trabalho.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

É tempo de blog

A página do seu Sindicato na internet você já conhece. É http://www.sintrajusc.org.br

Agora o SINTRAJUSC disponibiliza também o blog, ampliando as possibilidades de comunicação com os filiados e filiadas. Na página você continuará a encontrar todas as informações institucionais do Sindicato, o acesso para serviços através da Sua Conta, as informações sobre o Jurídico e as notícias diariamente atualizadas que têm relação com as lutas do SINTRAJUSC e da FENAJUFE, incluindo PCS, Plano de Carreira, saúde e condições de trabalho. Isso tudo não irá mudar.
E o blog trará um pouco mais:

- Notícias sobre as lutas de outras categorias do serviço público federal e dos trabalhadores em geral, em Santa Catarina e nos outros estados do país
- Informações sobre temas como meio ambiente e o papel da mídia

O blog também terá:

. entrevistas curtas filmadas e disponibilizadas em arquivo digital
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O objetivo é que cada notícia sirva de contraponto ao que as grandes redes oferecem de informação. Observe, por exemplo, o que acontece em Santa Catarina. A RBS consolida hoje uma posição discursiva privilegiada: dona de emissoras de rádio, de tevê e de jornais, ela é a grande fonte de interpretação da realidade social, espacial, política, econômica, do Estado. Santa Catarina se vê pelos “olhos” da RBS, que monopoliza uma certa memória das coisas a dizer, filmar e escrever sobre o Estado. Os três jornais diários de SC – DC, A Notícia e o Santa, de Blumenau – são da RBS, que também é dona do Hora, jornal que também é diário, mas com circulação restrita à Grande Florianópolis. A única exceção é o Notícias do Dia. Para saber mais, leia o artigo RBS expande seus domínios, escrito por Jacques Mick em 28 de agosto de 2007: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=448IPB002

Sobre a importância da imprensa sindical, leia o artigo http://sintrajusc.blogspot.com/2008/04/lingista-eni-orlandi-em-seus-livros.html, neste blog

E aguarde mais novidades nas próximas duas semanas!